Extremadura, uma província a descobrir
Extremadura, terra do extremo. Extremo da península ibérica, extremo da Europa. Entrincheirada durante séculos entre a distante capital e o hostil e menos rico Alentejo português, a Extremadura é hoje uma província que se reinventa.
Embora ainda fortemente agrícola e conservadora, a Extremadura soube aproveitar os fundos europeus para se revitalizar. Entrou confiante no século XXI como uma região moderna e cheia de encantos. Houve um franco desenvolvimento da indústria mas a Extremadura também soube tirar partido de algumas das suas maiores riquezas: a diversidade de vida selvagem e uma paisagem natural praticamente imutável desde há séculos.
Marcada por gerações de emigração, hoje as migrações que se observam não são de pessoas mas de outro recurso valioso: as aves. As suas vastas planícies intercaladas por pequenas cadeias montanhosas são o local perfeito para nidificação de variadas espécies de aves. “Bird-watching”, um conceito praticamente desconhecido em Portugal mas que nos países nórdicos e sobretudo no Reino-Unido, alimenta uma verdadeira indústria turística, à qual tive o prazer de ser introduzido este fim-de-semana.
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Esta terra é muito mais que um simples local de engorda dos famigerados porcos Pata Negra cujo presunto (jamon) faz as delícias desta gente. A bolota que alimenta os porcos também é a razão de visita de enormes pássaros: os grous (grulas). Estas aves, que me eram totalmente desconhecidas, podem ser vistas em grandes grupos sobre verdejantes campos semeados de trigo e aveia, salpicados aqui e acolá de azinheiras. Param aqui para descansar e alimentarem-se a caminho do norte.
Além de grous, existem aqui centenas de espécies de aves, desde as mais comuns cegonhas à rara e altiva águia-real. Um verdadeiro paraíso para as aves e os turistas amantes da natureza no seu estado puro. Algumas são nativas, muitas outras apenas aqui passam nas suas rotas migratórias. As melhores épocas para as observar são a Primavera e o Outono.
Confesso que para mim a Extremadura era uma terra incógnita. Um local de passagem até Madrid ou Barcelona sem qualquer interesse, apenas paisagens áridas semi-nuas e cidades com pouco glamour.
Martin e Yadira fizeram-me ver que estava errado. O primeiro, como guia especializado em observação de aves, a segunda como guia de outros encantos da Extremadura mais urbana. Martin expressava um conhecimento enciclopédico de aves num inglês e espanhol imaculado. Yadira Chaparro, é esse o seu apelido, expressava igualmente um profundo conhecimento (e apetite) por vinhos, cervejas, tapas e “jamon ibérico”.
Na verdade, esta visita, extremamente bem organizada, teve tanto de “bird-watching” como de “food-watching”, ou melhor, “food-tasting”. E eu que pensava que era só em Portugal que se podia passar mais tempo a comer que a trabalhar. E que comida! Outro mito comum no nosso país é o de dizer que em Espanha se come mal e caro. Venham até à Extremadura e vão ver o que é comer bem. Quanto ao caro já não sei, mas não me pareceram preços exorbitantes.
Debaixo de chuva intensa, visitámos algumas colónias de dezenas de abutres pretos na Serra de Gata e no Parque Natural de Monfrague. Esta ave é uns dos icons da Extremadura por ser a maior ave da Europa e aqui se encontrarem as maiores colónias do mundo. Vimos estas aves de rapina equilibradas sobre as altas ravinas sobranceiras ao rio Tejo, num local conhecido pelo Salto do Cigano. Aqui este grandes rapaces desdobravam as suas longas asas para apanhar os primeiros raios de sol que teimava em romper bolsas de espesso nevoeiro que davam ao local um aspecto ainda mais místico.
Em Villa Real de San Carlos, passámos na FIO – Feira Internacional de Ornitologia. A FIO, a razão pela qual aqui estávamos, foi uma feira bem organizada e, sobretudo, bem pensada para promover os negócios do turismo ligado à observação de aves. Foi uma surpresa saber da existência de tantas organizações de conservação e promoção do turismo de observação de aves.
“Marchámos” para Mérida, capital romana da Ibéria – e capital da Extremadura. Mérida é uma pequena cidade encantadora. Ainda são evidentes os traços de uma cidade romana vibrante – o mais evidente é a sua ponte romana com quase 1 000 m de extensão. Ainda mais impressionante se torna quando se vê o rio Guadiana em cheia, quase a roçar o topo dos arcos de sustentação. Não se passa sem uma visita ao fabuloso museu romano, digno de uma cidade que sabe respeitar a sua história. Nós passámos porque tínhamos de ir para sul à procura de aves.
Em Hornachos fizemos uma revigorante caminhada pelas colinas adjacentes à pequena povoação. Depois de vários alertas do Martin para aves que, confesso, desconhecia por completo, lá avistamos uma águia real voando bem alto, mesmo com o vento forte. Que imponente! Sem dúvida dos animais mais belos do planeta. Hoje existem apenas alguns pares de águias reprodutoras pois esta ave de rapina passou por sérias dificuldades devido a doenças que dizimaram a população de coelhos. No final partimos para Llerena, uma pequena povoação já no extremo sul da Extremadura. Pelo caminho sobrevivemos a ventos ciclónicos, como se a natureza nos quisesse também arrancar do solo e fazer-nos voar como as aves que observávamos.
E que dizer da noite interminável num bar junto ao restaurante onde degustámos maravilhosos pratos de tapas de carne? Dançámos flamenco e essas danças loucas que só os espanhóis sabem executar. Acho que virámos a pacata Llerena de pernas para o ar, mas ninguém deu por isso. Afinal estamos em Espanha, e aqui diversão faz parte do dia-a-dia. Olé!
A viagem terminou em Zafra, uma cidade encantadora impregnada de história e de cultura árabe, comum em muitas cidades da Andalucia. Zafra é famosa pelo seu mercado de gado (Feria – que ainda hoje se realiza em Outubro) bastante frequentada pelos comerciantes de toda a Espanha e Portugal. Muitos Judeus viveram aqui, mesmo debaixo da inquisição, fruto de uma protecção especial que os governantes de Zafra obtiveram do rei. Após uma visita guiada pelas belas ruas da cidade (o aqui designado casco viejo), acabámos por nos despedir no parador como crianças depois de passarem um mês num campo de férias.
Podia acabar dizendo que o turismo ornitológico da Extremadura tem um vasto potencial turístico ainda por explorar em Portugal. Digo apenas: Extremadura? SI!
Alguns números sobre a Extremadura
- Área: 42 000 km2
-População: 1.1 milhão.
-Tejo e Guadiana são os dois grandes rios que atravessam Extremadura.
-Afluentes do rio Tejo: Rio Ambroz, Jerte, Almonte, Salor e Tietar.
-Monumentos Naturais: Los Barruecos e Mina de la Jayona.
-Parques Naturais e Nacionais: Reserva Natural Garganta de los Infiernos, Cornalvo e Tejo Internacional, Monfragüe.
-Barragens: Orellana, García de Sola, Cíjara, La Serena e Zújar.
-Toda a informação sobre Turismo Ornitologico em http://www.turiex.com/turismo_ornitologico.php
Mais informações em: www.turismoextremadura.com
Nota final: a região tem inúmeras rotas e itinerários pedestres (muitos deles bem assinalados) para os amantes da natureza. Muitos deles podem ser acedidos e descarregados a partir do site http://www.gpsies.com que possui rotas pedestres e de bicicleta georeferenciadas de todo o mundo.
Fotos de Gianfranco Mattu (www.gianfrancomattu.com) e Georg Schreier (http://algarvebirds.blogspot.com/)
PS: embora só refira Martin e Yadira, tanto Godfried com Karissa foram guias fabulosos. Obrigado a todos.





